sábado, 23 de maio de 2009

Bébé do Gelo


Um mamute em estado de conservação quase perfeito reemerge ao fim de 40 mil anos, fornecendo pistas sobre esta espécie já extinta.

A manada de mamutes aproxima-se do rio agitado.
Uma cria caminha vagarosamente junto às enormes pernas da progenitora, esfregando de vez em quando a tromba no seu pêlo comprido e brilhante. O céu está limpo e um vento seco assobia entre as ervas que ondulam como vagas oceânicas numa estepe com 18 mil quilómetros de extensão, cobrindo o arco setentrional do mundo na idade do gelo.
O longo Inverno chegou ao fim: o canto das aves e o aroma da argila enchem o ar. O calor do Sol distraiu talvez a mãe e, por um instante, ela perde o rasto da sua cria. A bebé dirige-se para a água. Tropeça na margem escorregadia e desliza para dentro de uma mistura de argila, areia e neve acabada de derreter. Debatendo-se para se libertar, cada movimento arrasta-a mais para o fundo. A lama entra-lhe na boca, na tromba, nos olhos. Desorientada, arqueja por uma lufada de ar, mas em vez disso enche a boca de lodo. Tossindo, vomitando, tomada de pânico, emite um guincho agudo que faz a progenitora correr até ela. Inspirando com todas as suas forças, a cria suga a lama para o fundo da traqueia, selando os pulmões. Quando a progenitora chega à margem, a bebé está parcialmente submersa no lodaçal gélido e mexe-se debilmente, entrando rapidamente em estado de choque. A cria afunda-se debaixo da superfície sob o olhar da progenitora e do resto da manada.

Texto de Tom Mueller
Fotografia de Francis Latreille

National Geographic